
Anotações sobre Mario Quintana
“Porta giratória”, de Mário Quintana, é, de longe, o melhor livro de crônicas que já li na minha vida. Se levanto de manhã, quero abrir o livro. Se estou longe de casa, quero chegar logo para ler, nem que seja um trecho, antes de dormir. Neste caso, como beleza é algo que eu não consigo ver sozinho, aproveitei minha coluna de hoje para que vocês vejam também.
“Diálogo familiar
— Mas por que você não escreve umas coisas mais sérias?
— Ora, tia Élida! Eu já não sou mais criança…”
“Retrato
… aquele renomado economista, com sua cara compenetrada de ovo choco…”
“Sentimentalismos
Quando uma dessas vovozinhas me exibe umas fotografias e vai me apontando e explicando:
— Este aqui é meu último netinho, o outro é o mais velhinho, a do meio, seu Mario, é a que está sentada na areia.
— Ah, vocês nem acreditariam, mas essa é a única chateação que eu suporto com gosto.”
“Respostas tiradas de uma entrevista
— Quais são as personalidades a quem mais admira
— Greta Garbo e Sherlock Holmes
— Qual o maior poeta brasileiro atual?
— Deixe disso. Nenhum poeta é cavalo de corrida para ser obrigado a chegar em primeiro lugar.
— Sua principal qualidade?
— O bom senso (não confundir com senso comum).
— Seu principal defeito?
— O de todos, isto é, o de não saber qual seja.
— O que você acha da poesia engajada?
— O mesmo que acho das perguntas engajadas.”
“Não é possível
O futuro é uma espécie de Banco ao qual vamos remetendo, um a um, os cheques das nossas esperanças. Ora, não é possível que todos os cheques sejam sem fundo!”
“Os silêncios
Não é possível amizade quando dois silêncios não combinam.”
“Da arte de fazer visitas
Sempre que o convidavam a uma casa, perguntava-lhes se se podia levar um amigo. Deixava então os outros conversarem enquanto ele fingia que escutava.
O ruim de uma visita familiar é que a dona da casa sempre faz perguntas quando a gente está de boca cheia.”













